
O Zé Delivery nasceu para levar bebidas ao consumidor, mas a Ambev vem ampliando sua função: a plataforma também opera como uma loja digital de conveniência, reúne produtos de outras marcas e gera informações sobre hábitos de compra. Para bares, restaurantes e negócios de alimentação, a mudança oferece uma lição prática: pensar a venda a partir da ocasião de consumo, e não apenas de um produto isolado.
Segundo reportagem do Estadão, o aplicativo completa dez anos com cerca de 6 mil itens disponíveis e presença em 800 cidades. Em 2025, registrou 67 milhões de pedidos e R$ 4,7 bilhões em GMV — valor total transacionado na plataforma, não necessariamente receita da empresa. A Ambev pretende elevar de cerca de 20% para até 40% a participação dos produtos complementares às bebidas.
A ocasião pode valer mais do que o item
A proposta é atender ao que acompanha uma situação de consumo. Em um churrasco, por exemplo, a compra pode incluir cerveja, carvão, carne, sorvete e itens de apoio. A conveniência está em resolver uma necessidade mais completa, com menos esforço para o cliente. O Zé Delivery também comercializa bebidas de concorrentes e produtos de outras marcas, conforme a reportagem.
A empresa afirma que seu foco é a compra pontual, com entrega rápida, e não a disputa direta por pedidos de restaurantes. O executivo Fernando Mazzarolo disse ao Estadão que a companhia não pretende, por ora, entrar na concorrência de refeições com plataformas como iFood e 99. A aposta é ampliar categorias ligadas aos momentos em que a bebida costuma ser consumida.
Para um estabelecimento independente, a escala e a estrutura da Ambev não são replicáveis. Mas a lógica de observar o contexto do pedido pode ser. Um bar que recebe grupos para assistir a uma partida pode facilitar a compra de porções para compartilhar; uma hamburgueria pode oferecer acompanhamento e bebida como combinação; um restaurante com almoço executivo pode testar sobremesa ou café como complemento.
O ponto não é acrescentar itens indiscriminadamente. É identificar o que faz sentido para o cliente e para a operação. Uma oferta complementar mal planejada pode aumentar a complexidade do estoque, gerar perdas ou atrasar a cozinha. Antes de incluir opções, vale verificar se há demanda, capacidade de produção e margem suficiente.
Mais itens não garantem mais resultado
A ampliação do catálogo pode aumentar as ocasiões em que o consumidor considera um canal de compra, mas cada novo item precisa se sustentar nos números. Para avaliar uma combinação, o gestor deve calcular o custo dos ingredientes, considerar embalagem, taxas do canal e mão de obra envolvida e comparar o resultado com o preço cobrado. A calculadora de CMV ajuda a entender o peso dos insumos, enquanto a ferramenta de preço de venda pode apoiar a formação do preço sem depender apenas da concorrência.
Também é importante acompanhar se a oferta realmente eleva o valor do pedido ou apenas substitui uma compra que já aconteceria. Compare o ticket médio dos pedidos com e sem o complemento, observando períodos e canais equivalentes. A ferramenta de ticket médio pode ajudar nessa leitura. O indicador, sozinho, não prova que uma ação funcionou: deve ser analisado junto de margem, volume vendido e desperdício.
Um teste simples pode começar com poucas opções e prazo definido. O gestor pode registrar quantos clientes aceitaram a oferta, quais itens tiveram saída e se a equipe conseguiu atender sem prejudicar o tempo de serviço. Se o resultado for bom, a oferta pode ser ajustada ou ampliada. Se não for, o teste evita transformar uma ideia atraente em custo fixo ou estoque parado.
Parcerias e operação precisam andar juntas
No caso do Zé Delivery, a reportagem descreve parcerias com fornecedores e marcas para ampliar o sortimento. Para negócios menores, parcerias locais também podem ser úteis: um fornecedor de sobremesas, uma marca de bebida ou um produtor regional pode completar a experiência sem exigir que o restaurante fabrique tudo internamente.
A parceria, contudo, precisa definir responsabilidades. Quem controla disponibilidade e qualidade? Como serão tratados atrasos, devoluções e reclamações? Qual é a margem de cada parte? Essas respostas importam tanto quanto o potencial de atrair pedidos. Uma oferta que depende de terceiros pode prejudicar a experiência se o estoque anunciado não corresponder ao que está disponível.
Dados: vantagem de conhecer o próprio cliente
A Ambev considera o aplicativo uma fonte de inteligência sobre o consumidor final. A plataforma permite acompanhar respostas a produtos, ocasiões e campanhas. O grupo também mantém o BEES, voltado a vendas para bares, restaurantes e outros pontos de venda. Segundo o Estadão, as duas operações ajudam a empresa a observar tendências e a executar estratégias comerciais.
Um restaurante não precisa de uma plataforma desse porte para aproveitar o princípio. Registros de venda por horário, canal, categoria e combinação já podem revelar quais produtos aparecem juntos e quais ofertas têm procura. O desafio é transformar observação em decisão: ajustar compras, revisar o cardápio ou planejar uma ação com base no comportamento real, em vez de depender apenas de impressão.
A cautela é não confundir volume de pedidos com rentabilidade. Uma promoção pode vender mais e ainda assim reduzir a margem; um item popular pode ter custo ou desperdício elevado. Por isso, vale cruzar os dados de vendas com fichas técnicas, custos e capacidade de atendimento.
O que o gestor pode levar para o negócio
A estratégia do Zé Delivery não prova que todo estabelecimento deva virar uma loja de conveniência, nem que a venda de produtos complementares funcione da mesma forma em qualquer operação. Ela mostra, porém, que ampliar a utilidade de um canal pode aproximar o negócio de mais momentos de compra — desde que a oferta seja coerente e economicamente viável.
Na prática, o gestor pode começar por três perguntas: em quais ocasiões o cliente compra; o que costuma faltar ou ser pedido junto; e quais complementos a operação consegue entregar com qualidade e margem. A resposta pode levar a uma combinação no cardápio, a uma parceria ou simplesmente à retirada de itens que ocupam espaço sem gerar retorno.
O aprendizado central é menos sobre quantidade de produtos e mais sobre conveniência bem desenhada. Para o food service, conhecer o cliente e facilitar uma ocasião de consumo pode abrir oportunidades. Mas a decisão de crescer o sortimento deve vir depois da conta — e não no lugar dela.
Fontes
Perguntas frequentes
O que mudou na estratégia do Zé Delivery?
Além de bebidas, a plataforma passou a oferecer produtos complementares e de terceiros, com foco em compras ligadas a ocasiões de consumo.
A Ambev pretende competir com aplicativos de comida?
Segundo a reportagem do Estadão, a empresa não pretende, por ora, disputar o delivery de refeições e prioriza a expansão da conveniência no aplicativo.
Como um restaurante pode testar produtos complementares?
Pode começar com poucas opções, medir adesão, ticket médio, margem e impacto na operação antes de ampliar a oferta.
Quais indicadores ajudam a avaliar uma combinação de produtos?
CMV, margem, ticket médio, volume vendido e desperdício ajudam a entender se a oferta gera resultado, e não apenas mais pedidos.
Ferramentas para aplicar este artigo
- CMV — Custo de Mercadoria Vendida →
Quanto do seu faturamento vira custo de insumo.
- Preço de Venda →
Markup, custo, despesas e margem desejada.
- Ticket Médio →
Quanto cada cliente gasta em média.


