Pular para o conteúdo
← Artigos

Trend gastronômica: como decidir se vale entrar na onda

Produtos que viralizam podem atrair clientes, mas também pressionar equipe, custos e coerência da marca. Veja como testar a oportunidade antes de ampliar a produção.

S
SetorFood
6 min de leitura · 9 out 2026
Gestora de restaurante avalia uma sobremesa em tendência enquanto a equipe prepara uma pequena produção. — Foto: César O'neill (Pexels)
Gestora de restaurante avalia uma sobremesa em tendência enquanto a equipe prepara uma pequena produção. — Foto: César O'neill (Pexels)

Viralizar não é o mesmo que dar lucro

Uma sobremesa aparece em vídeos, ganha versões em diferentes cidades e, pouco depois, chega aos cardápios. Para o restaurante, a sequência pode parecer um convite à ação imediata. Mas transformar atenção nas redes em resultado exige mais do que reproduzir a receita: é preciso avaliar público, posicionamento, custos e capacidade de atendimento.

A reportagem da *Pequenas Empresas & Grandes Negócios* usa o morango do amor como exemplo de produto que saiu das redes sociais e se espalhou pelo país. Também cita tendências como sanduíches doces e bolos em fatia. Especialistas ouvidos pela publicação alertam que uma novidade pode gerar vendas no curto prazo sem necessariamente fortalecer a marca ou ser viável na operação.

A pergunta útil para o gestor não é apenas “isso está viralizando?”. É: “consigo atender essa demanda com margem, qualidade e consistência — e essa oferta faz sentido para o meu negócio?”.

Primeiro, entenda que tipo de tendência está diante de você

Nem toda onda tem o mesmo prazo de validade. Algumas desaparecem depois do pico de atenção; outras perdem o caráter de novidade, mas encontram lugar duradouro no mercado. A reportagem cita o smash burger e produtos com pistache como exemplos de itens que passaram por uma fase de forte interesse e depois se incorporaram ao repertório gastronômico.

Também há movimentos ligados a mudanças mais amplas de hábitos. Leo Texeira, da consultoria NaMesa, aponta a redução da procura por bebidas alcoólicas entre integrantes da Geração Z como uma mudança que já influencia cardápios. Mocktails e cervejas sem álcool são exemplos mencionados na reportagem.

Para o estabelecimento, distinguir uma febre de uma mudança de consumo ajuda a definir o tamanho do compromisso. Uma edição limitada pode ser adequada para uma onda passageira; já uma alteração mais estrutural pode justificar testes recorrentes e uma revisão mais ampla da oferta.

Aderência à marca vem antes da pressa

A popularidade não elimina a necessidade de conhecer o próprio público. Uma tendência que funciona em outro país ou em outro perfil de negócio pode não ter a mesma aceitação local. A reportagem ressalta, por exemplo, que alguns sabores agridoces ainda encontram resistência entre consumidores brasileiros.

A coerência de posicionamento também pesa. Um produto pode vender por curiosidade e, ao mesmo tempo, confundir a proposta da casa. Para um negócio que se apresenta como referência em bem-estar, uma novidade que contradiga essa mensagem pode enfraquecer a credibilidade. Já uma padaria que se posiciona pela experimentação talvez encontre na tendência uma forma natural de demonstrar inovação.

Antes de decidir, avalie se a novidade atende uma ocasião de consumo relevante para seus clientes, se combina com o cardápio e se pode ser apresentada sem descaracterizar a experiência da casa.

Faça a conta completa, não só a da receita

Um erro comum é olhar apenas para o custo dos ingredientes. A análise precisa incluir o efeito da novidade sobre a rotina: tempo de preparo, treinamento, equipamentos, utensílios, disponibilidade de insumos, desperdício e capacidade de atendimento. Segundo os especialistas consultados pela PEGN, a complexidade operacional adicional pode pesar tanto quanto o custo da mercadoria.

Comece registrando ingredientes, quantidades, rendimento e perdas em uma ficha técnica de receita. Depois, confira o CMV e avalie se o preço de venda proposto cobre os custos e preserva a margem esperada. A ferramenta não substitui a análise de mão de obra e despesas operacionais, mas ajuda a evitar uma decisão baseada somente na impressão de que o produto “vende bastante”.

Considere ainda o custo de produção em horário de pico. Se a novidade exige uma etapa demorada, pode reduzir a velocidade de outros pedidos, formar filas ou sobrecarregar a equipe. Uma venda adicional só é vantajosa se o conjunto da operação conseguir absorvê-la sem prejudicar os demais itens e o atendimento.

Teste pequeno, meça e só então amplie

A recomendação dos especialistas ouvidos pela reportagem é validar a novidade em escala reduzida. Para o gestor, isso pode significar limitar a oferta a determinados dias, horários ou quantidade de unidades. O objetivo é observar aceitação e execução antes de comprar mais insumos, treinar toda a equipe ou dar destaque permanente ao item.

Acompanhe, pelo menos, vendas, margem, tempo de preparo, perdas, necessidade de retrabalho e comentários dos clientes. Registre também as dúvidas e dificuldades da equipe: elas podem revelar que a receita precisa de ajustes ou que o produto não se encaixa bem no fluxo da cozinha.

Jean Pontara, gastrônomo citado pela PEGN, estima que, quando uma tendência mostra crescimento consistente, pode haver uma janela de três a seis meses para aproveitá-la. Esse intervalo é uma avaliação do especialista, não uma garantia de duração. Para a empresa, a implicação é prática: vale preparar um teste ágil, mas sem pular a validação financeira e operacional.

Uma operação menor pode ter mais facilidade para experimentar e ajustar o volume, como observa Cristina Souza, da Tanjerin. Isso não significa produzir sem controle: estabelecer um limite de unidades ajuda a reduzir sobras e a proteger o caixa caso a procura fique abaixo do esperado.

Comunicação faz parte do teste

Se o produto tem apelo visual ou uma forma interessante de consumo, o conteúdo pode ajudar a apresentar a novidade. A reportagem recomenda participar da conversa nas redes e produzir vídeos curtos, além de acompanhar as interações e as vendas. Mas alcance, curtidas e compartilhamentos não substituem resultado comercial.

O gestor deve comparar a repercussão digital com o que ocorre no balcão, no salão ou nos pedidos. Se o conteúdo chama atenção, mas poucas pessoas compram, investigue preço, disponibilidade, clareza da oferta e adequação ao público. Se vende, mas compromete margem ou operação, a popularidade também não resolve o problema.

Uma diferenciação própria — na apresentação, no formato ou na combinação com outros itens — pode evitar que a casa seja apenas mais uma repetindo a mesma versão. A criação, porém, deve continuar compatível com a capacidade de execução e com a identidade da marca.

Planeje também a saída — ou a próxima versão

Toda tendência passa por fases: descoberta, popularização, multiplicação de versões e perda de interesse. A PEGN recomenda observar tanto os indicadores de venda quanto as interações relacionadas ao produto. Quando a demanda cai, não é obrigatório manter o item nem retirá-lo imediatamente: a decisão depende dos números e do papel que ele ocupa no cardápio.

Se ainda houver interesse, ajustes de formato, tamanho, embalagem ou ocasião de consumo podem prolongar a oferta. Edições limitadas ou retornos ocasionais também são alternativas citadas pelos especialistas. Se a procura não sustentar a produção, encerrar o teste e revisar as compras pode ser mais sensato do que insistir para não admitir que a onda passou.

No fim, entrar em uma trend é uma decisão de gestão, não uma obrigação de acompanhar cada novidade. O melhor momento para aderir é quando a oportunidade combina com o público, cabe na operação e faz sentido nos números. E o melhor teste é aquele que permite aprender sem comprometer o restante do negócio.

Fontes

Perguntas frequentes

Como saber se uma trend gastronômica combina com meu estabelecimento?

Compare a novidade com o perfil dos clientes, o posicionamento da marca e as ocasiões de consumo atendidas. Popularidade, sozinha, não garante aderência.

O que devo calcular antes de lançar um produto viral?

Além do custo dos ingredientes, considere mão de obra, tempo de preparo, treinamento, equipamentos, insumos, perdas e impacto na capacidade de atendimento.

Como testar uma tendência sem assumir um risco alto?

Comece com uma oferta limitada em quantidade, dias ou horários e acompanhe vendas, margem, perdas, tempo de execução e resposta dos clientes.

Devo retirar do cardápio um produto quando a trend perde força?

Avalie os resultados e o papel do item. Se ainda houver demanda, teste adaptações ou retornos pontuais; se a operação e os números não se sustentarem, encerre a oferta.

Ferramentas para aplicar este artigo

Tendências
S
Escrito por
SetorFood

Ferramentas gratuitas para gestão de restaurantes.

Boletim semanal · gratuito

Um artigo. Toda terça.

Diagnósticos, casos reais e ferramentas — para quem toca um restaurante na vida real.

Mais para você
Outros artigos da SetorFood sobre gestão
Coloque em prática
Calcule o que você acabou de ler.
Ver as ferramentas →