
A retração da cerveja já aparece nos números
A cerveja perdeu força no Brasil em 2025. As vendas recuaram 5% em relação ao ano anterior, enquanto a produção nacional caiu 9%, para 15,7 bilhões de litros, segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária. Os dados foram divulgados pelo Portal UAI.
A retração ocorre após o consumo atingir um pico em 2022 e desacelerar nos anos seguintes. O movimento também aparece no mercado internacional: de acordo com dados da Euromonitor citados pela reportagem, as vendas em supermercados, bares e restaurantes estavam 3,5% abaixo dos níveis anteriores à pandemia.
Para o gestor de food service, a leitura não deve ser simplesmente “vender menos cerveja”. O cenário combina perda de poder de compra, preços mais altos, condições climáticas e mudanças de hábito. Isso exige olhar para o desempenho da bebida dentro do próprio negócio — por ocasião, faixa de preço e perfil de cliente — antes de mexer no cardápio ou fazer compras maiores.
O consumidor está ajustando frequência e gasto
Um levantamento do Bank of America com mil consumidores brasileiros, apresentado no material de apoio, ajuda a detalhar a mudança. Nos seis meses anteriores à pesquisa, 52% disseram ter mantido o consumo de cerveja e 13% afirmaram que reduziram a ingestão, ante 11% na pesquisa de 2025. Já a parcela que bebe mais de uma vez por semana ficou em 56%, abaixo dos cerca de 60% observados de forma relativamente estável desde 2024.
Os dados não significam que todos os clientes estejam abandonando a categoria. Indicam, porém, que parte pode estar bebendo com menor frequência ou controlando melhor o gasto. O levantamento também aponta maior pressão entre consumidores de renda mais baixa e redução de sete pontos percentuais no consumo semanal entre mulheres em relação à pesquisa anterior.
No salão, essa mudança pode aparecer de formas diferentes: uma mesa que pede menos unidades, troca uma marca por outra mais barata ou escolhe outra bebida. Mas esses exemplos são hipóteses para investigar, não conclusões que sirvam automaticamente para qualquer estabelecimento. O ponto de partida deve ser o histórico de vendas da casa.
Separe volume, receita e margem
A queda no volume vendido não conta toda a história financeira. Uma categoria pode vender menos unidades e ainda ter uma participação relevante na receita; também pode faturar bem, mas deixar uma margem apertada depois de custos, perdas e descontos.
Por isso, acompanhe pelo menos três dimensões: quantidade vendida, receita e margem de contribuição. Compare períodos equivalentes e observe diferenças entre dias da semana, horários, canais e faixas de preço. Se houver dados suficientes, avalie ainda o desempenho por marca, estilo ou tamanho da embalagem.
A calculadora de CMV pode ajudar a conferir quanto o custo da bebida representa em relação ao preço de venda. Use o resultado para identificar itens que pressionam a margem e embasar decisões sobre preço, negociação com fornecedores ou permanência no menu. A ferramenta não substitui a análise do negócio, mas organiza uma conta que não deve ser feita apenas pela comparação com o concorrente.
Preço e estoque: decisões sem piloto automático
A reportagem aponta perda de poder aquisitivo, aumento dos preços e elevação dos custos de produção entre os fatores associados à retração. Para o restaurante ou bar, isso cria uma tensão conhecida: repassar custos pode proteger a margem, mas também pesar na decisão de compra do cliente. Absorver todo o aumento, por outro lado, pode comprometer o resultado.
Em vez de aplicar um reajuste uniforme sem avaliar o cardápio, revise o custo e o papel de cada item. A ferramenta de precificação ajuda a simular preços a partir dos custos e da margem pretendida. Use a análise junto aos dados de venda: um item de preço acessível pode ser importante para a escolha do cliente, enquanto outro pode ter espaço para reposicionamento. Não há uma resposta igual para todos os estabelecimentos.
O estoque também merece atenção. Se o giro de determinados rótulos desacelerou, compras baseadas apenas no desempenho de períodos anteriores podem deixar capital parado e aumentar o risco de perdas, especialmente em produtos com validade ou condições específicas de armazenamento. Revise a frequência de compra e compare o estoque disponível com a saída real. Evite, contudo, cortar variedade sem observar se algum produto atende a uma ocasião ou público específico.
Uma revisão prática pode começar por estas perguntas:
- Quais cervejas perderam volume e quais mantiveram a saída?
- A mudança ocorreu em todos os dias e canais ou está concentrada em momentos específicos?
- O preço atual cobre custos e entrega a margem necessária?
- Há produtos com baixo giro ocupando espaço ou capital sem justificativa comercial?
- Promoções aumentam vendas suficientes para compensar o desconto?
Novos produtos podem ser teste, não aposta
Segundo o Portal UAI, fabricantes têm investido em versões com menos calorias e sem glúten e aproximado marcas de eventos esportivos e do universo fitness. A estratégia responde a preocupações com saúde, composição dos produtos e efeitos do álcool. Para bares e restaurantes, isso pode abrir possibilidades de oferta, mas não comprova que esses itens terão procura em qualquer praça ou perfil de operação.
Antes de ampliar o portfólio, converse com clientes, observe pedidos e teste a aceitação em escala controlada. Considere espaço de armazenamento, condições de fornecimento, preço de compra e compatibilidade com a proposta da casa. A inclusão de uma nova opção só faz sentido se houver coerência com o público e viabilidade operacional e financeira.
Também é importante não tratar produtos com menos calorias ou sem glúten como substitutos universais da cerveja tradicional. A decisão de consumo pode estar ligada ao orçamento, à frequência, à ocasião ou à preferência individual. Uma nova versão não resolve, por si só, uma retração causada por fatores econômicos e mudanças mais amplas de hábito.
O que o gestor deve fazer agora
Os indicadores nacionais apontam uma categoria em ajuste, mas não definem o resultado de cada bar ou restaurante. A resposta mais segura é acompanhar os próprios números, revisar o equilíbrio entre preço, margem e giro e testar mudanças antes de assumir compromissos maiores de compra ou de comunicação.
Comece com uma comparação dos últimos períodos disponíveis e identifique onde está a variação: menos clientes pedindo cerveja, menos unidades por pedido ou migração entre faixas de preço. Em seguida, confira custos e estoque e estabeleça um prazo para avaliar qualquer alteração no menu. Assim, a decisão deixa de ser uma reação genérica à notícia e passa a responder ao comportamento observado no seu negócio.
Fontes
Perguntas frequentes
Quanto caíram as vendas de cerveja no Brasil em 2025?
As vendas recuaram 5% em relação a 2024, segundo os dados divulgados pelo Portal UAI.
Quanto caiu a produção brasileira de cerveja?
A produção caiu 9% em 2025 e chegou a 15,7 bilhões de litros, conforme o Anuário da Cerveja 2026.
A queda nacional significa que todo bar vende menos cerveja?
Não. Os dados nacionais indicam uma retração do setor, mas cada estabelecimento deve analisar seu próprio volume, receita e margem.
Vale incluir cervejas com menos calorias ou sem glúten no cardápio?
Pode valer a pena testar, desde que haja sinais de interesse do público e que custo, armazenamento e preço sejam viáveis para a operação.
Ferramentas para aplicar este artigo
- CMV — Custo de Mercadoria Vendida →
Quanto do seu faturamento vira custo de insumo.
- Preço de Venda →
Markup, custo, despesas e margem desejada.


