
Mais faturamento não garante mais lucro
Bares e restaurantes devem movimentar R$ 540 bilhões em 2026, segundo projeção da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Se confirmada, a estimativa representa avanço de cerca de 9% sobre os R$ 495 bilhões de 2025. O setor também registrou, em agosto, crescimento de 7,4% nas vendas na comparação com o mesmo mês do ano anterior: foi o 11º mês seguido de alta anual.
Os números apontam um mercado ativo, mas não significam que todos os negócios estejam convertendo vendas em resultado. Em julho, apenas 42% dos estabelecimentos pesquisados pela Abrasel declararam ter operado com lucro, enquanto 20% fecharam no prejuízo. Em dezembro de 2025, 47% informavam ter registrado lucro. A diferença reforça um ponto essencial para a gestão: faturamento é uma medida de vendas, não de rentabilidade.
Para o dono de um restaurante, o alerta é prático. O salão pode estar cheio e o caixa pode registrar mais entradas, mas isso não basta para pagar custos crescentes, compromissos financeiros e despesas da operação. É preciso entender quanto sobra depois de cada venda e se o dinheiro entra no momento necessário para honrar as contas.
Custos sobem, mas o repasse tem limite
A Abrasel aponta alimentos e energia entre as pressões sobre os estabelecimentos. O presidente-executivo da entidade, Paulo Solmucci, também chama atenção para a dificuldade de reajustar preços sem afetar o consumo. Segundo ele, a renda disponível das famílias está restrita: apenas 21% sobrariam depois do pagamento das despesas básicas.
Esse contexto torna arriscada uma resposta automática, como aumentar todos os preços na mesma proporção ou aplicar reajustes sem avaliar o impacto no cliente. Por outro lado, manter valores desatualizados também pode corroer a margem. O gestor precisa comparar o custo atual dos pratos com o preço praticado e considerar o papel de cada item no cardápio.
Uma primeira medida é revisar fichas técnicas e conferir se os custos usados nos cálculos ainda correspondem aos preços de compra e às quantidades realmente utilizadas. A calculadora de CMV pode ajudar a relacionar o custo das mercadorias vendidas com a receita. O resultado não substitui a análise por produto, mas ajuda a identificar se o custo de alimentos está consumindo uma parcela maior das vendas.
Reajustar com critério
Antes de mudar o cardápio, vale observar quais itens têm custos mais pressionados e quais são relevantes para a escolha do cliente. A decisão pode envolver rever porções, fornecedores, composição dos pratos ou preços — desde que qualquer alteração preserve a proposta do negócio e seja comunicada com clareza.
Também é importante calcular o efeito do reajuste na margem, não apenas no valor cobrado. A ferramenta de precificação permite testar preços com base nos custos e nas despesas considerados pelo estabelecimento. Para a equipe gestora, o exercício ajuda a responder perguntas concretas: o preço atual cobre os custos? Qual seria o efeito de uma mudança? Há itens cuja contribuição para o resultado é pequena demais?
Juros altos afetam estoque e investimento
Além dos custos operacionais, a Abrasel destaca o peso dos juros sobre o caixa. Crédito caro aumenta o custo de financiar estoques e investimentos, segundo Solmucci. Para o estabelecimento, isso significa que decisões de compra e expansão precisam levar em conta não apenas a demanda esperada, mas também o custo e o prazo de pagamento do dinheiro utilizado.
Estoque em excesso pode imobilizar recursos que seriam necessários para despesas do dia a dia. Já comprar menos do que a operação exige pode dificultar o atendimento. O equilíbrio depende do histórico de consumo, do prazo dos fornecedores e da capacidade de reposição de cada negócio; não existe um nível único adequado para todos.
Nesse cenário, acompanhar entradas e saídas previstas é tão importante quanto observar o saldo bancário do dia. A ferramenta de fluxo de caixa pode apoiar o registro de recebimentos, pagamentos e compromissos futuros. Com essa visão, o gestor consegue antecipar períodos de aperto, avaliar o custo de uma operação financiada e decidir se um investimento cabe no caixa sem comprometer obrigações essenciais.
Atenção à qualidade do crescimento
A Abrasel avalia que parte do desempenho de 2026 pode estar associada a estímulos temporários ao consumo, como a Copa do Mundo, a antecipação do saque-aniversário do FGTS, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e outras medidas de crédito e transferência de renda. Isso não significa que a demanda vá cair, mas recomenda cautela ao projetar vendas futuras com base apenas nos meses mais aquecidos.
Para planejar 2027, é prudente trabalhar com cenários diferentes, em vez de assumir que o ritmo recente continuará. O gestor pode comparar as vendas atuais com períodos anteriores, identificar despesas que variam com o movimento e separar custos recorrentes dos gastos pontuais. As projeções devem ser revisadas quando os resultados reais ficarem disponíveis.
A expansão do setor também não elimina a concorrência. O material de apoio cita mais de 148 mil empresas de alimentação fora do lar abertas entre novembro de 2023 e novembro de 2024. O dado dimensiona a disputa por clientes e recursos, mas não determina o desempenho de cada negócio. Para o gestor, a resposta passa por conhecer o próprio público, acompanhar o resultado de cada canal de venda e evitar decisões baseadas apenas no movimento geral do mercado.
Caixa e margem no centro da gestão
A recomendação de Solmucci é acompanhar de perto custos e caixa. Na prática, isso pede uma rotina de gestão: fechar os números com frequência, comparar o previsto ao realizado e investigar desvios antes que se acumulem. Acompanhar faturamento sem olhar custos, despesas e compromissos financeiros deixa incompleta a avaliação do negócio.
O avanço projetado para o setor é uma oportunidade, mas não uma garantia de lucro. Para transformar demanda em resultado, o estabelecimento precisa vender com margem, ajustar compras à operação e preservar liquidez. Em um ambiente de consumidor com orçamento limitado e crédito caro, crescer de forma sustentável pode exigir decisões mais seletivas do que simplesmente buscar mais vendas.
Fontes
Perguntas frequentes
Por que o faturamento pode subir sem aumentar o lucro?
Porque vendas maiores não garantem que os custos e as despesas tenham sido cobertos. Se alimentos, energia, crédito e outros gastos avançarem, a margem pode diminuir mesmo com mais receita.
O que o gestor deve revisar antes de reajustar preços?
Custos atualizados dos ingredientes, porções, despesas da operação e margem de cada item. Também é importante avaliar como a mudança pode afetar a percepção de valor e a decisão de compra do cliente.
Como juros altos afetam bares e restaurantes?
Segundo a Abrasel, o crédito caro eleva o custo de manter estoques e financiar investimentos. Por isso, o gestor deve considerar prazos de pagamento e impactos no caixa antes de assumir dívidas.
Como se preparar para uma possível desaceleração em 2027?
Acompanhe custos, vendas e fluxo de caixa e monte cenários de planejamento sem presumir que o ritmo de 2026 continuará. A projeção deve ser atualizada conforme os resultados reais.
Ferramentas para aplicar este artigo
- CMV — Custo de Mercadoria Vendida →
Quanto do seu faturamento vira custo de insumo.
- Preço de Venda →
Markup, custo, despesas e margem desejada.
- Fluxo de Caixa →
Entradas e saídas semana a semana.


